Publicado por: bcnh | 28/05/2009

Bárbara e Alvarenga

B A R B A R A   H E L I O D O R A

 

 

            Naquele tempo, por volta do ano de 1789, talvez não houvesse, em toda a Capitania de Minas Gerais, mulher mais feliz do que Bárbara Heliodora. Inteligente, educada e bela, casara-se com Alvarenga Peixoto, advogado e poeta, finamente educado e dos homens mais ricos do Brasil. Possuía fazendas, minas de ouro e muitos escravos. Sua casa em São Gonçalo da Campanha era abastada e ricamente adornada com obras de arte, cortinas de Damasco, tapeçarias orientais. Serviam-se à mesa em ricas baixelas de ouro.

            Aos domingos, dirigiam-se à igreja em liteira conduzida por escravos de libré.

            A felicidade de Bárbara era grande. Seus filhos, entre eles Maria Ifigênia, linda como só o podem ser as fadas, – eram educados pelos melhores professores, que iam especialmente do Rio de Janeiro a São Gonçalo, para educá-los. Maria Ifigênia, embora muito criança ainda, dançava com graça, desenhava com perfeição, além de falar várias línguas. Apelidavam-na todos a “princesa do Brasil”, pela sua educação, beleza e importância de sua família.

            De repente, tudo se mudou na vida de Bárbara Heliodora.

            Era no tempo da Inconfidência. Os mineiros mais ilustres agruparam-se para tratar da independência do Brasil e Alvarenga fazia parte desse grupo.

            Uma tarde entrou Alvarenga em casa trêmulo e pálido e chamou Bárbara:

            – Bárbara, está tudo perdido! A conjuração foi descoberta. Os nossos bens vão ser confiscados. Você, Bárbara, ficará pobre, na miséria! E não é tudo ainda: serei condenado à morte. Você ficará viúva e nossos filhos, órfãos.

            Bárbara Heliodora deixou escapar um frito de terror.

            – Mas poderei, talvez, salvar a Você e a nossos filhos de tamanha desgraça, disse Alvarenga.

            – Como? – perguntou Bárbara, olhando-o espantada.

            – Denunciando os meus companheiros! – disse Alvarenga.

            – Nunca, Alvarenga! Seria uma traição! Prefiro a morte à desonra! Prefiro a miséria! Prefiro a viuvez e a orfandade para meus filhos, mas quero o seu nome limpo e a sua memória honrada! Se o condenarem, morrerá como um herói.

            Alvarenga, arrependido e envergonhado desse pensamento, disse:

            – Denunciar meus companheiros? Não! Seria uma vileza e uma covardia. Nunca fui vil nem covarde! Foi um mau pensamento, Bárbara, perdoe-me!

            Naquela mesma hora, Alvarenga foi preso.

            O quadro maravilhoso da vida de Bárbara mudara-se de repente. Bárbara tornou-se infeliz, a mais infeliz de todas as mulheres da Capitania de Minas Gerais. Tornou-se santa, mártir, heroína.

            A sua casa foi logo invadida pelas autoridades que confiscaram seus bens, sem que ela ocultasse coisa alguma. Ao contrário, ela própria fez entrega de tudo.

            Continuou Bárbara a educar seus filhos.

            Três anos depois, foi Alvarenga condenado à morte. Entretanto, por ato de D. Maria I, a rainha de Portugal, trocou-se a pena de morte pela de degredo perpétuo na África, sendo os filhos e netos dos inconfidentes declarados infames.

            Alvarenga Peixoto, depois de permanecer dois anos prisioneiro na Ilha das Cobras, embarcou para Angola, na África, onde morreu pouco depois de chegado.

            Bárbara resistiu heroicamente a tudo. Não aconteceu, porém, o mesmo à sua filha Maria Ifigênia que aos poucos definhando com os desgostos, e acabou morrendo aos quinze anos de idade.

            Bárbara, que até então não desfalecera nem um minuto, começou a perder a razão e acabou louca. Com as vestes rotas, o olhar desvairado e os cabelos desgrenhados, vagava pelas ruas de São Gonçalo. Entre as palavras sem sentido que proferia, eram sempre ouvidos os nomes de Maria Ifigênia e de Alvarenga.

Fonte: Livro doado à Biblioteca Comunitária, porém está sem capa e sem nenhuma referência do título.

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